domingo, 15 de maio de 2016

A Mordaça.

A mulher andava.
Chinelos de dedo
Troucha de roupas na cabeça
Tijolo pedurado no pescoço e  
Há na boca uma mordaça.
Que figura estranha. Ele se chocou!
Que nada essa é a carne comum das redondezas.
Mulher de pouco trato, olhos cansados, parece até que não sabe o que é dormir a semanas.
Um bruguelo de menos de dois anos a segue pela estrada.
Somente de fralda, o passo apressado e um olhar curioso.
Era seu filho.
- Mas pra onde diabos essa coitada vai? Se perguntou o homem.
Olhos marejados e distantes.
- Quantos lamentos ela traz no peito?
- Quantos desencontros à tornaram amarga? Continuou a indagar-se.
Ela ainda caminhava. Há Algum lugar ela tinha de chegar.
Ele não se conteve e perguntou: - Olhe! A senhora mesmo! Essa flor que encontrei cabe ali no seu cabelo. Posso? Pegava o seu passo. 
E ela nada.
- Deixe – me acompanha-la por uns instantes?
A mulher parecia tratar – lhe com desdém.
- Ora essas, além de amordaçada ainda é surda? Retrucava o homem.
Ela continuava andando.
O homem de chapéu engraçado continuava a lhe importunar.
- Posso saber o ar da sua graça?
Ela continuava no mesmo passo, pé após pé na saga de quem tem aonde chegar.
Por fim então ele passou-lhe a frente, e a parou. O bruguelo parou também e o observou.
- Por que me ignoras? Perguntou o homem.
Ela então o olha, tira a mordaça e o responde: - De onde eu venho o destino não fala, o presente não escuta e o passado vira navalha, que de pouquinho em pouquinho rasga cada pedaço do que trago no peito.
O homem parou perplexo.
A mulher colocou a mordaça novamente e voltou a andar.
E o seu bruguelo atrás, o passo apressado pra acompanhar a mãe.
Eles sumiram no horizonte da estrada.
O homem foi embora. Mas antes, tirou um pedaço de pano do bolso e botou na boca.
Descobriu finalmente quem a amordaçava.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Sonambulismo

Sabe... Há um processo no qual me enxergo e mais que isso, enxergo tantos outros não me conforta. Me definha, me exaure, me condena ao ceticismo mesquinho, de uma vida sem fronteiras que se ultrapassam.
Sem as fronteiras do "nós", sem a fronteira do "eu" que se percebe e se trata, sem as fronteiras das dimensões mágicas, místicas e infindáveis.
Sem a fronteira da morte. E se não há nem mesmo a morte pra ultraPASSAR, o que há então? O que resta?
Resta sonambular! Sonambular em uma dimensão de cegos, que se condicionam incapazes de enxergar a si mesmos. E o pior! É a credulidade que nós juízes dessa superfície, vazia de "nós" e cheias de "eus" egocêntricos somos senhores da razão. Ousamos dar ou retirar guiando-nos por nossos olhos, os mesmos que estão cegos e só guiam para a escuridão. Despertar nesse cenário, é acordar de um naufrágio, estando eu afundando num oceano de falsas verdades que me entranham de nariz a dentro, me sufocam a cada segundo e me fazem perceber uma incapacidade... Sou eu apenas mais um, dos vários semi-mortos mergulhados nesse mesmo oceano. E me pego ainda dentro do oceano desperto e ao mesmo tempo confuso com o real. Seria nessa horrenda realidade de perdidos que eu gostaria de acordar? Como volto a dormir? Eu quero dormir ou manter-me aqui? Não! Não! Não! Não! Não!
Não há mais querer, há precisar e esse é o meu bote salva-vidas. Mas eu estou afundando e o bote está lá em cima, só preciso nadar até ele. Depois e só então lá suspirarei, com a gratidão de quem voltou a vida, que transcende, que ultrapassa, perpassa, acredita no saber, no sentir, no ser regenerado.