Sonhei um
sonho que parecia meu. Lembranças que pareciam minhas. Pessoas que me pareciam
muito familiares. Olhei-me num espelho, vi uma pessoa que pensei ser eu. Eu
estava nua, uma borboleta azul pousa em meus seios. Olhando aquele estranho
reflexo senti o pulsar do coração. Veias. Um arrepio subia pelas costas. E as
mãos, por mais diferentes que fossem, eram mesmo as minhas. Pensei ser aquela
que vi. Tudo me parecia real, a luz do sol me encandeava tanto quanto a um
inseto em torno de uma lâmpada. Fiquei presa naquele instante em que o sol
nascia no horizonte verde. O calor
tocava minha pele e a mistura de cores me extasiava, Cores surreais, um prazer
extremo me tomava. Meu paraíso se tornou minha prisão.
Todos os
relógios parados, ponteiros não sabem contar o tempo. O tempo não existe. Tudo
se passa sem que um milésimo de segundo, ou em anos, possa ser anotado. Não há
como medir a eternidade. Eis um momento de dúvida. Estava eu no mundo de
verdade ou vivendo uma mentira das ilusões? O que é real?
Dentro de um
sonho, quando o consideramos agradável, suprindo todas as nossas necessidades e
prazeres, não sentimos o desejo de acordar, preferimos manter-nos ali, onde
tudo parece uma felicidade contínua, todo aquele Universo me remetia a sensações
boas. Ainda assim meu subconsciente encontrava maneiras de sussurrar que havia
algo errado, mesmo que de forma sutil.
Voltei a me
olhar no espelho, em busca de respostas que não sabia sequer as perguntas. Olhei
aqueles olhos que pensei serem meus, me deparei em um momento de
autoconhecimento e logo o reflexo me puxou a outra realidade. Definitivamente
eu coexistia em mim e naquele reflexo, o “eu” aflorava cada vez mais naquele corpo,
aquelas formas físicas não eram minhas, mas a essência era a mesma. A borboleta
voou dos meus seios à minha testa.
Minhas formas
reais tomaram conta daquele reflexo e pude enxergar-me e enfim reconhecer-me.
Era o indício do meu despertar. A sensação é ter acordado de um sonho e
sentir-me dentro de outro. Algo continuava fora do lugar. Eu estava diante de
um grande e complexo jogo de estratégia contra a minha mente, com certeza não
era uma disputa muito justa, já que o adversário imaginário tinha todo o
domínio e conhecimento sobre mim. Eu que só tinha a certeza a pouco descoberta
de “ser”, buscando desvendar outro lado meu, detentor do mundo das ideias, parte
complementar do que sou.
Um emaranhado
de sonhos divididos em “subplanos” de pseudo-realidades. Um sonho dentro de um
sonho era nisso que eu estava presa. Eu tomei as rédeas do “eu” como ser
existente, mas não do resto e essa era a única certeza que me cabia. A
borboleta pairou sobre meus cabelos. A minha percepção mudou quanto aquele
Universo Paralelo, eu só estava vendo o que queria ver. Abri a rota de fuga daquele
plano, que se distorcia de forma proposital em meio a toda a perfeição que me
prendia como quem quisesse me sinalizar algo. Ao me convencer da minha
existência acordei daquele plano paradisíaco. Mas não do sonho.
O que acabava
de ver no espelho era fascinante. Eu descobri a farsa. Era um sonho e como todo
sonho não dura muito quando é descoberto. E enquanto eu acordava em outro plano,
adormecia nesse velho, de forma imperceptível a mim. Meu maior desejo era ter
acordado no mundo real.
Nesse novo
plano não possuía mais o domínio sobre os meus sentimentos, de tal forma que
não me sentia mais eu, eu era o descontrole. Paradoxalmente a dúvida e a
certeza se afirmavam revezando-se ao passo em que eu me percebia pensando em
uma delas. Havia uma grande disputa entre o “eu essência” e o “eu consciência”.
Eles saíram de mim, éramos três agora, todos materializados naquela realidade
negra e outrora vazia.
A consciência
tomou a forma de um homem, que com todo seu ar de superioridade usava de suas facetas
para prender-me no mundo dos sonhos. No mesmo instante a essência tomava a
forma de uma mulher, chocada e envergonhada por notar-se nua diante de meus
olhos fixos em seu corpo, prendi-me na curiosidade de vasculhá-la, de senti-la
mais próximo a mim. Mantivemo-nos ali, os três. A consciência narcísea, a
essência dissimulada e eu paradoxo, presa no mundo da dúvida.
Naquele jogo
de aparências, a consciência parecia ter desencadeado uma guerra interna sem
explicações ou propósitos, de maneira a tentar destruir a essência. Eu assistia
a batalha, de maneira bastante incômoda. Meus cinco sentidos entraram em
colapso, se comportando como ondas no mar. Mantive-me estática por incontáveis
instantes no descontrole. Entre as idas e vindas da minha audição podia ouvir a
discussão. Vezes ouvia a consciência, outras a essência. Mas não conseguia
ouvir ambas.
Eu estava
enlouquecendo. Desespero. Choro. Riso. Alívio. Pude ouvi-las por completo.
Minha visão se tornou um borrão, já não podia vê-las, se não como duas luzes
distintas. Não pude deixar de notar o quanto elas eram simetricamente contrárias.
O homem e a mulher, o sim e o não, o preto e o branco. A simetria revelada em
batalha me fez vê-las como uma só. Não existia mais discussão, era apenas uma voz
que me falava. Esta saia da minha boca. Perdi a visão por completo. A voz,
contava-me sobre segredos velados no esquecimento de vidas passadas. A
borboleta voa dos meus cabelos e pousa em meu queixo. Meus sentidos se
afloraram com a perca da visão. O som, me tocava, transpassando os poros da
minha pele, já não precisava mais da audição, podia compreendê-lo pelo toque. O
homem e a mulher vêm até mim e tocam-me. Podia sentir a presença de ambos,
agora de uma maneira mais íntima. Minha visão volta. Eles permaneciam presentes,
mas haviam se desmaterializado.
Senti-me perdida, então olho para cima, frestas
de luz surgem em meio ao negro, uma surreal e bela imagem trazia a destruição.
Fechei meus olhos, tudo desmoronava. Uma sensação de queda. Abri meus olhos com
a sensação de queda, olhei para o lado, ainda eram três da manhã, levantei para
lavar o rosto. Nem percebi que havia uma borboleta azul no meu travesseiro.
Mariana Nascimento