terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Sonhos de Borboleta


       
         

Sonhei um sonho que parecia meu. Lembranças que pareciam minhas. Pessoas que me pareciam muito familiares. Olhei-me num espelho, vi uma pessoa que pensei ser eu. Eu estava nua, uma borboleta azul pousa em meus seios. Olhando aquele estranho reflexo senti o pulsar do coração. Veias. Um arrepio subia pelas costas. E as mãos, por mais diferentes que fossem, eram mesmo as minhas. Pensei ser aquela que vi. Tudo me parecia real, a luz do sol me encandeava tanto quanto a um inseto em torno de uma lâmpada. Fiquei presa naquele instante em que o sol nascia no horizonte verde.  O calor tocava minha pele e a mistura de cores me extasiava, Cores surreais, um prazer extremo me tomava. Meu paraíso se tornou minha prisão.
Todos os relógios parados, ponteiros não sabem contar o tempo. O tempo não existe. Tudo se passa sem que um milésimo de segundo, ou em anos, possa ser anotado. Não há como medir a eternidade. Eis um momento de dúvida. Estava eu no mundo de verdade ou vivendo uma mentira das ilusões? O que é real?
Dentro de um sonho, quando o consideramos agradável, suprindo todas as nossas necessidades e prazeres, não sentimos o desejo de acordar, preferimos manter-nos ali, onde tudo parece uma felicidade contínua, todo aquele Universo me remetia a sensações boas. Ainda assim meu subconsciente encontrava maneiras de sussurrar que havia algo errado, mesmo que de forma sutil.
Voltei a me olhar no espelho, em busca de respostas que não sabia sequer as perguntas. Olhei aqueles olhos que pensei serem meus, me deparei em um momento de autoconhecimento e logo o reflexo me puxou a outra realidade. Definitivamente eu coexistia em mim e naquele reflexo, o “eu” aflorava cada vez mais naquele corpo, aquelas formas físicas não eram minhas, mas a essência era a mesma. A borboleta voou dos meus seios à minha testa.
Minhas formas reais tomaram conta daquele reflexo e pude enxergar-me e enfim reconhecer-me. Era o indício do meu despertar. A sensação é ter acordado de um sonho e sentir-me dentro de outro. Algo continuava fora do lugar. Eu estava diante de um grande e complexo jogo de estratégia contra a minha mente, com certeza não era uma disputa muito justa, já que o adversário imaginário tinha todo o domínio e conhecimento sobre mim. Eu que só tinha a certeza a pouco descoberta de “ser”, buscando desvendar outro lado meu, detentor do mundo das ideias, parte complementar do que sou.
Um emaranhado de sonhos divididos em “subplanos” de pseudo-realidades. Um sonho dentro de um sonho era nisso que eu estava presa. Eu tomei as rédeas do “eu” como ser existente, mas não do resto e essa era a única certeza que me cabia. A borboleta pairou sobre meus cabelos. A minha percepção mudou quanto aquele Universo Paralelo, eu só estava vendo o que queria ver. Abri a rota de fuga daquele plano, que se distorcia de forma proposital em meio a toda a perfeição que me prendia como quem quisesse me sinalizar algo. Ao me convencer da minha existência acordei daquele plano paradisíaco. Mas não do sonho.
O que acabava de ver no espelho era fascinante. Eu descobri a farsa. Era um sonho e como todo sonho não dura muito quando é descoberto. E enquanto eu acordava em outro plano, adormecia nesse velho, de forma imperceptível a mim. Meu maior desejo era ter acordado no mundo real.
Nesse novo plano não possuía mais o domínio sobre os meus sentimentos, de tal forma que não me sentia mais eu, eu era o descontrole. Paradoxalmente a dúvida e a certeza se afirmavam revezando-se ao passo em que eu me percebia pensando em uma delas. Havia uma grande disputa entre o “eu essência” e o “eu consciência”. Eles saíram de mim, éramos três agora, todos materializados naquela realidade negra e outrora vazia.
A consciência tomou a forma de um homem, que com todo seu ar de superioridade usava de suas facetas para prender-me no mundo dos sonhos. No mesmo instante a essência tomava a forma de uma mulher, chocada e envergonhada por notar-se nua diante de meus olhos fixos em seu corpo, prendi-me na curiosidade de vasculhá-la, de senti-la mais próximo a mim. Mantivemo-nos ali, os três. A consciência narcísea, a essência dissimulada e eu paradoxo, presa no mundo da dúvida.
Naquele jogo de aparências, a consciência parecia ter desencadeado uma guerra interna sem explicações ou propósitos, de maneira a tentar destruir a essência. Eu assistia a batalha, de maneira bastante incômoda. Meus cinco sentidos entraram em colapso, se comportando como ondas no mar. Mantive-me estática por incontáveis instantes no descontrole. Entre as idas e vindas da minha audição podia ouvir a discussão. Vezes ouvia a consciência, outras a essência. Mas não conseguia ouvir ambas.
Eu estava enlouquecendo. Desespero. Choro. Riso. Alívio. Pude ouvi-las por completo. Minha visão se tornou um borrão, já não podia vê-las, se não como duas luzes distintas. Não pude deixar de notar o quanto elas eram simetricamente contrárias. O homem e a mulher, o sim e o não, o preto e o branco. A simetria revelada em batalha me fez vê-las como uma só. Não existia mais discussão, era apenas uma voz que me falava. Esta saia da minha boca. Perdi a visão por completo. A voz, contava-me sobre segredos velados no esquecimento de vidas passadas. A borboleta voa dos meus cabelos e pousa em meu queixo. Meus sentidos se afloraram com a perca da visão. O som, me tocava, transpassando os poros da minha pele, já não precisava mais da audição, podia compreendê-lo pelo toque. O homem e a mulher vêm até mim e tocam-me. Podia sentir a presença de ambos, agora de uma maneira mais íntima. Minha visão volta. Eles permaneciam presentes, mas haviam se desmaterializado.
Senti-me perdida, então olho para cima, frestas de luz surgem em meio ao negro, uma surreal e bela imagem trazia a destruição. Fechei meus olhos, tudo desmoronava. Uma sensação de queda. Abri meus olhos com a sensação de queda, olhei para o lado, ainda eram três da manhã, levantei para lavar o rosto. Nem percebi que havia uma borboleta azul no meu travesseiro.
Mariana Nascimento